Comunidade do Carrapato, no Crato, mantém viva a ancestralidade negra e indígena em meio à efervescência cultural

Foto: Luiz na Nuvem

Reconhecida por suas ações comunitárias, moeda social e forte tradição artística, a comunidade rural recebe nesta segunda-feira (13) o espetáculo “Margarida, Pra Você Lembrar de Mim”, fortalecendo o diálogo entre memória, território e arte popular.

Nesta segunda-feira, 13 de outubro, às 19h, o espetáculo “Margarida, Pra Você Lembrar de Mim” será apresentado no Carrapato Cultural, espaço comunitário da zona rural do Crato. A encenação integra a temporada de circulação pelo Cariri e Sertão de Crateús, estabelecendo um intercâmbio entre arte, memória e ancestralidade.

Nome e histórias que resistem no território

A comunidade do Carrapato, na zona rural do Crato, carrega em seu nome uma história que atravessa gerações. Segundo os moradores mais antigos, o local era conhecido como Sítio Carrapato, devido à grande quantidade de plantas de mamona, chamadas popularmente de mamona-carrapateira.

“A semente da mamona lembrava um carrapato. Como havia muitas aqui, apelidaram o lugar de sítio Carrapato. Esse nome pegou e foi passando de geração em geração, e hoje se fortalece cada vez mais”, relata Samuel Nascimento, morador da comunidade.

Atualmente, o nome permanece vivo em diferentes formas: Sítio Carrapato, Vila Carrapato e Carrapato Cultural, reafirmando o pertencimento e a continuidade das tradições locais.

Comunidade rural e ponto de cultura no Cariri

Formada por famílias de agricultores, a comunidade do Carrapato é também um ponto de cultura reconhecido pela diversidade de ações culturais. O Carrapato Cultural promove atividades de comunicação popular, como rádio web, rádio poste e rádio literária, e mantém uma biblioteca comunitária que incentiva o hábito da leitura.

O território abriga ainda o grupo de maracatu Uinu Erê e uma feirinha quinzenal, realizada aos sábados, onde são comercializados produtos feitos pelos próprios moradores. Além disso, há uma associação comunitária e um espaço cultural onde acontecem eventos tradicionais, como o Carnaval Cultural, a festa do padroeiro São Pedro e as festas juninas, sempre marcadas pela forte efervescência artística e popular.

Parcerias e turismo de base comunitária

O espetáculo chega à comunidade por meio de uma parceria entre o Carrapato Cultural e outras instituições, fortalecendo o intercâmbio entre arte, memória e território.

Atualmente, o Carrapato também se organiza para implementar o turismo de base comunitária, um modelo em que os próprios moradores protagonizam e gerenciam atividades turísticas em seu território, valorizando saberes locais e modos de vida.

Segundo Samuel, os moradores são receptivos e acolhedores, característica marcante da comunidade.

Moeda social e economia sustentável

Uma das inovações do Carrapato é a criação da moeda social Carrapato, desenvolvida para fortalecer a economia local e promover ações de sustentabilidade ambiental.

Com essa moeda, a comunidade compra óleo de cozinha usado, que é coletado pela associação de moradores e posteriormente vendido à empresa Sabão Juá. O recurso arrecadado retorna à comunidade, fortalecendo as atividades locais.

“A gente compra o óleo usado com a moeda, e ela circula na feira. É a moeda social”, explica Samuel Nascimento, morador da comunidade do Carrapato.

A moeda Carrapato circula exclusivamente na feira da comunidade, movimentando a economia interna e incentivando práticas ecológicas. O projeto alia geração de renda, preservação ambiental e autonomia econômica, tornando-se um exemplo de economia solidária e comunitária.

Ancestralidade negra e indígena

A influência negra e indígena é fortemente presente na comunidade. O Carrapato é reconhecido como uma comunidade anciã e negra, e atualmente um dos moradores conduz um processo de resgate da ancestralidade indígena.

“Tem um morador que está buscando o resgate familiar de sua ancestralidade indígena. Ele vem trabalhando isso em ações dentro da comunidade, reforçando o resgate por meio de práticas culturais, como o próprio uso da moeda social”, explica Samuel.

O Maracatu Uinu Erê, símbolo do território, expressa essa herança afro-indígena. O nome “Uinu Erê” significa “menino, criança negra”, representando a força e a continuidade das raízes da comunidade.

Espaços de memória e ancestralidade

No Carrapato, a memória também se materializa em espaços simbólicos. Um baobá plantado em homenagem aos 10 anos do Maracatu Uinu Erê representa a ancestralidade negra, enquanto um observatório indígena, construído pelo morador que resgata a memória indígena local, reforça o elo entre passado e presente.

Estes espaços integram o projeto de criação de um parque ecológico comunitário, que unirá natureza, cultura e ancestralidade em um mesmo território.

Intercâmbio cultural com o espetáculo

A relação entre o espetáculo “Margarida, Pra Você Lembrar de Mim” e o Carrapato é marcada pelo intercâmbio cultural entre ancestralidades negras, indígenas e quilombolas. A obra dialoga com o pertencimento à terra e à agricultura familiar, temas profundamente enraizados na vida da comunidade.

A visão da artista Luz Bárbara

Para Luz Bárbara, multiartista, performer e diretora do espetáculo, criado em 2015, a narrativa é um encontro entre a memória de Margarida Maria Alves e sua própria trajetória de artista indígena Kariri.

“A narrativa se conecta entre a memória de Margarida e minha busca por retomar saberes antigos do meu povo, que é o povo Kariri”, explica Luz Bárbara.

Em 2019, o espetáculo foi lançado como uma performance-palestra, circulando por Crato, Porto Alegre, Brasília e São Paulo. Agora, em 2025, a obra retorna em formato ampliado por meio da Bolsa Funarte de Teatro Myriam Muniz.

Circulação e fortalecimento de territórios

Segundo Luz Bárbara, a circulação busca fortalecer aldeias indígenas e comunidades com vínculos à terra.

“Nós passaremos por territórios Kariri, Potiguara, Tabajara e também por comunidades com forte relação com a terra e o território, em busca de fomentar a memória de Margarida e fortalecer o povo da mata e do campo”, afirma.

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Dalila da Silva

Jornalista graduada pela UFCA/CE, Produtora Audiovisual, Redatora e Revisora Textual.

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